LITERATURA E RESGATE DE VOZES FEMININAS: PALAVRA E MEMÓRIA EM ANA CRISTINA CESAR, ADÉLIA MARIA WOELLNER E ARRIETE VILELA

 

 

Antonio Donizeti da Cruz (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

 

“De alma debruçada

sobre a úmida falca

escuto o diálogo surdo

entre o cais e a corrente

o que jaz e o que se desprende.

Entre margens engessadas

na história escrita

ágrafas navegam

sem âncora de memória

as águas da vida”

         Astrid Cabral

 

As palavras de Astrid Cabral[1] são balizas em um “mar de palavras” e canções, tecidas no tear de palavras, esse “ofício do verso” – de que fala Jorge Luiz Borges –, marcado pela palavra-memória, registros, histórias, linguagem, amor e poesia. Vozes líricas femininas da poesia brasileira, Ana Cristina Cesar, Adélia Maria Woellner e Arriete Vilela, têm, em cumplicidade, o encantamento pela palavra poética e a paixão pela poesia e pela linguagem-memória. A seguir, breve apresentação, das Artistas da Palavra:

ANA CRISTINA CESAR nasceu no Rio de Janeiro, em junho de 1952. Publicou seus primeiros poemas muito cedo, em 1959, no “Suplemento Literário”, do Jornal carioca Tribuna da Imprensa. Licenciada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro em 1975. Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1979. Master of Arts (M.A.) em Theory and Practice of Literary Translation pela Universidade de Essex, Inglaterra, em 1980. Exerceu intensa atividade jornalística, editorial e como tradutora de relevantes autores estrangeiros, entre os quais a poeta Silvia Plath. Traduziu várias obras, entre elas, O Relatório Hite: um profundo estudo sobre a sexualidade feminina, de Shere Hite, e também realizou vários ensaios literários e jornalísticos.

Ana Cristina Cesar publicou as seguintes obras: Luvas de pelica; Cenas de Abril; Correspondência completa; Literatura não é documento. Em 1982, publicou A teus pés. Após sua morte em 29 de outubro de 1983, a reunião de seus escritos inéditos resultaram em três obras, organizadas por Armando Freitas Filho: Inéditos e dispersos (prosa e poesia) (1985); Escritos da Inglaterra (1988) e Escritos no Rio (1993).

ADÉLIA MARIA WOELLNER nasceu em Curitiba (PR). Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Foi professora de Direito Penal na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pertence a várias academias, entre elas, a Academia Paranaense de Letras, Academia Internacional de Letras da Inglaterra (Grafton Road, London, England).

Adélia Maria Woellner tem recebido prêmios literários e homenagens (Comenda Medalha de Mérito Ferroviário, concedida pela RFFSA, Rio de Janeiro, RJ). Publicou as seguintes obras: Balada do Amor que se foi (1963); Nhanduti (1964); Poesia Trilógica (1973); Avesso meu (1990); Infinito em mim (1997); Luzes no Espelho: memórias do corpo e da emoção (2004); Sons do silêncio (2004).  A obra Infinito em mim já foi editada em Espanhol, Inglês, Italiano, Francês, Alemão e também em Braile. Também escreve ensaios. A obra Luzes no Espelho é uma narrativa ficcional (memória autobiográfica). A obra woellneriana já foi pesquisada nos meios acadêmicos[2].

ARRIETE VILELA nasceu em Marechal Deodoro (Alagoas). Foi professora de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Alagoas. Publicou as seguintes obras: Para além do avesso da corda (1980); Farpa (1988); Fantasia e avesso (1986); A rede do anjo (1992); Dos destroços, o resgate (Gazeta de Alagoas); O ócio dos anjos ignorados (1995); Tardios afetos (1999); Vadios afetos (1999); Artesanias da palavra (Antologia de poemas, com participação de outros poetas); Maria Flor etc (2002); Grande baú, a infância (2003); Frêmitos (2004); A Palavra sem Âncora (2005); Lãs ao vento (2005); Ávidas paixões, áridos amores (2007).

 Arriete Vilela tem recebido prêmios e homenagens: Prêmio Organização Arnon de Melo - pela Academia Alagoana de Letras; Prêmio Cecília Meireles - União Brasileira de Escritores - UBE; Prêmio Jorge de Lima - pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores (RJ); Recebeu, em 2005, a “Comenda Dra. Nise da Silveira, outorgada pelo Governo do Estado de Alagoas, como uma das mulheres que mais têm se destacado no panorama cultural alagoano. A obra de Arriete Vilela já foi estudada nos meios acadêmicos, tendo sido objeto de pesquisa de dissertações de mestrado.

 

Palavra, poesia e memória: vozes líricas femininas

 

Para o poeta Octavio Paz, a poesia é a Memória feito imagem e convertida em outra voz. A poesia é sempre a “outra voz”, porque “é a voz das paixões e das visões; é de outro mundo e é deste mundo, é antiga e é de hoje mesmo, antiguidade sem datas” (1993, p. 140). No dizer de Paz, os poetas têm sido a memória de seus povos, pois “cada poeta é uma pulsão no rio da tradição, um momento da linguagem. Às vezes os poetas negam sua tradição mas só para inventar outra” (1993, p. 108-109). A invenção lírica se projeta do presente para o futuro. O poeta é ciente de sua tarefa: ser elo da corrente, uma ponte entre o ontem e o amanhã. Entretanto, no findar do século XX, ele “descobre que essa ponte está suspensa entre dois abismos: o do passado que se afasta e o do futuro que se arrebenta. O poeta se sente perdido no tempo” (PAZ, 1982. p. 69). Nesse sentido, ao recriar sua experiência, leva avante um passado que é um futuro. O tempo possui uma direção, um sentido, ou seja, “ele deixa de ser medida abstrata e retorna ao que é: concretude e dotado de direção. O tempo é um constante transcender” (PAZ, 1982. p. 69).

A função essencial do tempo na estruturação da imagem do mundo reside, conforme Octavio Paz, no fato de que o homem, dotado de uma direção e apontando para um fim, faz parte de um processo intencional (1991, p. 97). Os atos e as palavras dos homens são feitos de tempo. Assim, a cronologia está fundamentada na própria crítica. Já a poesia é tempo revelado, isto é, o enigma do mundo que se transforma em “enigmática transparência”. O poeta diz o que diz o tempo, até quando o contradiz, pois ele é capaz de nomear o transcorrer, e ainda, “torna palavra a sucessão” (PAZ, 1991, p. 98).

A palavra é sempre uma “manifestação profunda do ser”, afirma Javier González (1990, p. 156). Para o autor, mediante o universo poético, o poeta se apóia nos aspectos lúdicos, rítmicos e imaginários da linguagem, cuja função poética funciona como um vetor constitutivo da natureza humana. É pela palavra que o homem se coloca no plano expressivo superior a não-significação da ordem natural, pois ela, enquanto núcleo de dispersão e convergência, é capaz de nomear o mundo (1990, p. 152-153). González considera o trabalho do poeta como um desenvolvimento frente aos meios de fixação e dispersão de sentido, ou seja, como um jogo de palavras que tem por finalidade projetar um grande número de significações. Nessa perspectiva, o escritor descobre e constrói o mundo utilizando a palavra enquanto instrumento “capaz de conter a surpreendente variedade do real”, isto é, ele sabe que ofício da linguagem abre múltiplos espaços de “comunicação e de nominação dos objetos” (GONZÁLES, 1990, p. 156-157).

A poesia é potência capaz de dar sentido à vida. Ao buscar a essência da linguagem, o artista realiza o poder mágico através das palavras enquanto mediação, comunicação e exercício de construção de sentidos.

Para o filósofo Gaston Bachelard, o homem sonha através de uma personalidade de uma memória muito antiga. Ele mira-se em seu passado, pois toda imagem para ele é lembrança. “As verdadeiras imagens são gravuras. A imaginação grava-as em nossa memória. Elas aprofundam lembranças vividas, deslocam-nas para que se tornem lembranças da imaginação” (1993, p. 181, p. 13. Grifo do autor). Nesse sentido, memória e imaginação não se deixam dissociar, ou seja, ambas trabalham para o aprofundamento mútuo. Elas constituem, na ordem dos valores, uma união da lembrança com a imagem. “Uma memória imemorial trabalha numa retaguarda do mundo. Os sonhos, os pensamentos, as lembranças formam um único tecido. A alma sonha e pensa, e depois imagina” (BACHELARD, 1993, p. 181).

Conforme Bachelard, os poetas ordenam suas impressões associando-as a uma tradição. O mundo é um espelho do nosso tempo e também a reação das nossas forças, isto é, “se o mundo é a minha vontade, é também o meu adversário” (1989a, p. 165-166). Resulta desse embate a compreensão do mundo mediante a surpresa das próprias forças incisivas, nas quais consistem as renovações, pois é através da imaginação que o homem se situa frente ao “mundo novo”, cujos detalhes predominam sobre o panorama, decorrendo daí a expressão: “uma simples imagem, se for nova, abre o mundo” (1993, p. 143).

Gilbert Durand salienta que a memória tem “o caráter fundamental do imaginário, que é ser eufemismo, ela é também, por isso mesmo, antidestino que se ergue contra o tempo” (1997, p. 405. Grifo nosso.). É ainda “poder de organização de um todo a partir de um fragmento vivido”. Essa potência “reflexógena” é “o poder da vida”, que por sua vez, é capacidade de reação, de regresso. A organização que faz com que uma parte se torne “dominante” em relação a um todo é a negação da capacidade de equivalência irreversível que é o tempo. Por isso, a memória – bem como a imagem – é a magia dupla “pela qual um fragmento existencial pode resumir e simbolizar a totalidade do tempo reencontrado” (1997, p. 403). O ato reflexo é ontologicamente esboço da recusa fundamental da morte. Longe de estar do lado do tempo, “a memória, como o imaginário, ergue-se contra as faces do tempo e assegura ao ser, contra a dissolução do devir, a continuidade da consciência e a possibilidade de regressar, de regredir, para além das necessidades do destino” (DURAND, 1997, p. 403).

Frente às “faces do tempo” e à cristalização da “memória”, o homem se vê isolado, ilhado, mesmo estando rodeado por uma multidão. Mergulhado em um mundo de imagens e realidades que dão uma configuração à própria vida, ele é sabedor da sua condição existencial: a solidão habita a sua vida. Ou seja, ela é experiência viva que se concretiza não só enquanto recolhimento, mas, acima da tudo, como sentimento intrínseco frente à sensação de isolamento e vazio vivenciado pelo sujeito humano.

Em Amor, poesia, sabedoria, o filósofo Edgar Morin define a poesia como amor, estética, gozo, prazer, participação e, principalmente, vida (1998, p. 59). Ela é, igualmente, a manifestação de possibilidades infinitas da indeterminação humana. Já a criação poética tem o poder de reativar os conceitos  analógicos  e mágicos do  mundo e, também, despertar as forças adormecidas do espírito, com o intuito de reencontrar os mitos esquecidos. Para o filósofo, a poesia não é somente um modo de “expressão literária”, mas um “estado segundo” vivenciado pelo sujeito e que deriva da participação, da exaltação, embriaguez e, acima de tudo, “do amor, que contém em si todas as expressões desse estado segundo. A poesia é liberada do mito e da razão, mas contém em si sua união” (MORIN, 1998, p. 9). Essas duas forças são capazes de realizar a grande transformação vital, quer dizer, o amor se liga à “poesia da vida”. O filósofo ainda complementa:

 

A vida é um tecido mesclado ou alternativo de prosa e poesia. Pode-se chamar de prosa as atividades práticas, técnicas e materiais que são necessárias à existência. Pode-se chamar de poesia aquilo que nos coloca num estado segundo: primeiramente, a poesia em si mesma, depois a música, a dança, o gozo e, é claro, o amor. (MORIN, 1998, 59-60)

 

Em relação à figura do poeta, Morin destaca que este é portador de uma competência plena, “multidimensional”, pois sua mensagem poética tem a capacidade de reanimar a “generalidade adormecida”, ao mesmo tempo em que “reivindica uma harmonia profunda, nova, uma relação verdadeira entre o homem e o mundo” (1998, p. 158).

A linguagem poética é por natureza diálogo. É social porque envolve quem fala e quem ouve. A palavra que o poeta inventa é a de “todos os dias” e faz parte de nosso ser, quer dizer, “são nosso próprio ser. E por fazerem parte de nós, são alheias, são dos outros: são uma das formas de nossa ‘outridade’ constitutiva. [...] A palavra poética é a revelação de nossa condição original porque por ela o homem, na realidade, se nomeia outro, e assim ele é ao mesmo tempo este e aquele, ele mesmo e o outro” (PAZ, 1982, p. 217).

Palavra, memória e imaginação poética são elementos basilares na poesia de Ana Cristina Cesar, Adélia Maria Woellner e Arriete Vilela. Ao elaborar uma poiesis alicerçada em um mundo de significações, as poetas realizam um fazer poético que direciona à condição humana: transitoriedade e permanência. Nessa perspectiva, as poetas, com suas vozes líricas femininas, elaboram os textos/poemas dando-lhes sentidos, formas e um colorido singular, que exprimem um “sentimento do mundo”.  A temática social – na obra das Artistas da Palavra – está alicerçada numa construção poética capaz de valorizar os sentimentos de amor, participação frente aos inquietantes desafios que a vida impõe.

 

Rede de imagens poéticas intercruzadas nas vozes femininas: palavra e memória lírica

 

Os poemas de Ana Cristina Cesar, Adélia Maria Woellner e Arriete Vilela registram as sutilezas de um fazer poético embasado na força da linguagem, na memória e na concretização de um dizer que aponta para imagens visuais, claras, momentos de observação atenta de um eu em sintonia com o mundo circundante.

 

“Estas areias pesadas são linguagem

 

Qual a palavra que

Todos os homens sabem?”

 Ana Cristina Cesar  (1998a, p. 124).

 

Na obra da poeta-artista Ana Cristina Cesar é marcante o entrelaçamento de imagens poéticas centradas na questão da identidade/alteridade e na linguagem marcada pelo teor de modernidade e crítica, tal como no texto sintético, em prosa:

 

 onde   cruzo  com  a  modernidade,  e  meu  pensamento  passa

como um raio, a pedra no caminho é o time que você tira de campo.

(CESAR, 1998a, p. 154).

 

Segundo Armando Freitas Filho, “Ana Cristina Cesar encarava a modernidade. Talvez por isso tenha morrido cedo – pura passagem permanente – muitas asas e um desdém pelo que poderia ser raiz. O lugar que ocupa é na linha do horizonte – virtual e veloz” (FILHO, 1998). Ainda sobre a poesia de Ana Cristina Cesar, o poeta Armando Freitas Filho complementa a seguinte crítica:

 

Seu verso, que pertenceu à vertente cultivada da geração que apareceu em 70,  é, hoje, pedra de toque para toda poesia que se quer nova; com seus motivos e matizes estilizadas que se deixam acompanhar, ao fundo, por uma brusca e inusitada  melodia que parece ter sido feita pela mistura de cristais, heavy metal e tafetá. A obra é breve, um cinema essencial, e depressa. Morria de sede no meio de tanta seda. Nunca nos esquecemos de sua  paixão acesa e seca. O que mais queima: a pedra de gelo ou o ferro em brasa? Vulcão de neve. Ela não foi - ela fica - como uma fera. (FILHO, 1998).

 

No texto “Soneto”, a poeta Ana Cristina se (auto)apresenta e busca a interlocução com o leitor mediante o jogo da linguagem. Faz, ainda, uma possível aproximação com o poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, que diz “O poeta é um fingidor” (do latim Fingire: imitatore: imitador): “Pergunto aqui se sou louca / Quem quem saberá dizer / Pergunto mais se sou sã / E ainda mais, se sou eu // Que uso o viés pra amar / E finjo fingir que finjo / Adorar o fingimento / Fingindo que sou fingida // Pergunto aqui meus senhores / Quem é a loura donzela / Que se chama Ana Cristina // E que se diz ser alguém / É um fenômeno mor / Ou um lapso sutil?”  - Inconfissões – 31.10.68 (CESAR, 1998a, p. 38).

 São várias as indagações do eu lírico: há os questionamentos do Eu e da linguagem. Note-se a ausência de pontuação no texto, com exceção do último verso no qual aparece o ponto de interrogação. A permanente interrogação - marca profunda da literatura moderna - gira em torno da ausência que o branco da folha sugere. Dessa forma, é pela palavra que o poeta desenvolve a contínua transmutação de significantes, gerando novos sentidos e possibilidades de ser.

Na poesia/prosa de Ana Cristina Cesar, a palavra adquire, muitas vezes, a inflexão da interrogação ontológica. A poesia, enquanto busca de sentido, faz com que o poeta e o leitor mantenham na atualidade um procedimento de indagação perante esta arte, pois, no dizer de Octavio Paz, na modernidade, o poema adquire a forma de questionamento e, ao mesmo tempo, é “recuperação da outridade, projeção da linguagem num espaço despovoado por todas as mitologias, o poema assume a forma de interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga” (PAZ, 1982, p. 345).

O texto “Não adianta”, apresenta a temática da memória circunscrita na linguagem capaz de registrar os momentos vividos pelo eu lírico:

 

Antes havia o registro das memórias

cadernos, agendas, fotografias.

Muito documental.

 

Eu também estou inventando alguma coisa

para você.

Aguarde até amanhã.

 

Uma vez ouvi secamente o chega pra lá

e pensei: o mundo despencou

 

Quem teria a chave?

[...]

(CESAR, 1998a, p. 192).

 

Há, no texto, a afirmação do sujeito de enunciação de que o “mundo despencou”, por isso a indagação “Quem teria a chave?” Além da invenção e criatividade do sujeito lírico, a constatação do “documental”, uma vez que “antes havia o registro das memórias”, isto é, os “cadernos, agendas, fotografias” que serviam como baliza para se “escrever” de forma pontual a história, marcar o fluxo temporal e as ações vivenciadas pelo Eu.

No texto “aí é que são elas”, nota-se a busca incessante do eu lírico “procurando as chaves”, quer na (auto)referencialidade, quer pela incessante busca de identidade, quer pelas sendas e labirintos da linguagem marcada pelas lembranças e esquecimentos, mas, acima de tudo, evidencia-se a memória lírica registrada pelas palavras do sujeito da enunciação:

 

[...]

Eu procurava as chaves, a questão pendente, atravessava a luz deserta da praia de cabo a rabo, de vestido, voltava sobre os

meus próprios passos, ficava na varanda, atravessava os dias como uma planta perdida no deserto, naquele sol mais quieta. “Aqui eu

te conheço”. Eu não sabia que sabia, aquela planta.

A pauta se calasse... Ouvia:  “se você dançar...”  Só de memória

me espanto, de cabeça caio e saio, de cor, e pronto, socorram-me

então nesse esforço de raízes, ouvindo a chuva nas telhas de

menos dessa casa escura, com goteiras de verão e falta dágua,

sem transporte, descendo a estrada de pó nas sandálias havaianas,

fazendo uma bolha no calor, um lanho rubro,

repetindo. “Ana, na janela há um recadinho”, um curativo aberto,

um sanduíche aberto, um fantasma romântico no peito,

“se você dançar...”

Me lembro da rádio a mil dentro do carro,

e de uma saudade inata.

CESAR, 1998a, p. 106).

 

 

O texto (narrativa lírica) apresenta uma linguagem “rápida”, telegráfica, intercalada por uma multiplicidade de vozes que se interligam, marcada pelo forte acento de outras vozes que se cruzam o discurso do sujeito da enunciação que diz “eu procurava as chaves”. A imagem do sujeito lírico é comparada a uma “planta perdida no deserto”. O texto é norteado pela procura do Eu frente à desertificação, ao sentimento de vazio e por uma “saudade inata”.

A obra de Ana Cristina Cesar apresenta uma procura incessante de dizer o mundo e (re)inventar a linguagem poética a partir de uma estética e elaboração literária criativa, com sua “pinceladas de poesia”, numa multiplicidade de temas: linguagem, alteridade, metapoesia, lirismo, paixão, arrebatamento, mas acima de tudo o amor à palavra e à poesia, como nos versos do poema “Mulher”:

 

a coisa que mais o preocupava
naquele momento
era estudo de mulher

toda mulher
dos quinze aos dezoito.

Não sou mais mulher.
Ela quer o sujeito.
Coleciona histórias de amor.

(CESAR, 1998a, p. 131).

 

 Da questão da identidade à reflexão de um eu que se presentifica nos versos, o lirismo evidencia-se de forma clara e enquanto buscas do sujeito da enunciação.

No texto “Poesia”, de Ana Cristina, presença e ausência se mesclam num jogo de palavras, acentuado pelo ofício-cantante do sujeito lírico:

 

jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta

(CESAR, 1998a, p. 97).

 

No texto, o amor e o encantamento pela palavra/poesia se mesclam e se identificam entre si. Já o sentido do amor e da poesia aponta para a qualidade suprema da vida. Amor e poesia, no dizer de Morin, quando concebidos como fins e meios do viver, dão plenitude ao “viver por viver” (1998, p. 9-10).  São versos que direcionam o poema no sentido do amor e do ato de nomear as coisas; mesmo entre “ausências”, “palavras em pedaços”, a imagem da “lua” projetada em “uma falta contemplada”, a poesia é comparada a um “jardim de palavras”. Mas também há a consciência da fragilidade e dos mistérios frente às vicissitudes da vida. Emerge do poema uma relação de sentidos que se conjugam em torno do encantamento do eu lírico em relação ao amor às palavras, daí a aproximação de poesia e do amor, à afirmação de Morin: “o amor é algo único, como uma tapeçaria que é tecida com fios extremamente diversos”, isto é, “o amor enraíza-se em nossa corporeidade e, nesse sentido, pode-se dizer que o amor precede a palavra” (1998, p. 16-17).

 

“A palavra:

 

o porão

onde oculto

as estiagens

do amor.”

Arriete Vilela (“Poema 13”, 2004, p. 27).

 

A poeta Arriete Vilela, com uma poesia densa, tece sua “rede” de palavras centrada na temática da memória. O poema “Não devias” apresenta uma linguagem altamente elaborada, com acentuado lirismo e encantamento do eu lírico para com a palavra poética:

 

Não devias enamorar-te assim

das minhas palavras: são fios

que tecem a renda com que adorno

as entardecidas beiradas dos meus dias

e tecem, igualmente, a renda com que caço

borboletas que, à tua semelhança, voejam

solitárias ao redor do meu mistério

 

Não, não te devias exibir assim

à beira do poço: és pássaro de pequenas asas

e basta um descuidado sopro de minha poesia

para fazer-te ver o céu menor do que uma lágrima.

 

Não devias jogar-me à passagem

  e assim, à vista de todos –

belas metáforas: esmago-as com amorosos gestos

para que  gotejem em mim o sumo das folhas

da pitangueira com seu cheiro de infância

reencontrada na tua ausência.

 

Poupa-te, anjo de flores que só duram um dia.

Passa à margem do que sou,

protege esses teus olhos de mares transparentes

e não queiras estender o meu silêncio, a minha recusa

nem os sutis precipícios sobre os quais vivo

e escrevo.

 

Protege o teu coração

e não atices nele a colméia que espreita,

para além das cercas vivas de papoulas,

a dor nos descuidos da alegria amorosa

(VILELA, et al. 2001, p. 29-30)

 

A memória lírica, no poema, surge enquanto baliza capaz de realizar e resgatar fatos e lembranças passadas, mas sempre organizada de maneira individual, centrada nos artifícios da linguagem, nas modulações de um pensamento que (re)elabora o passado, dando novos sentidos ao ato de rememorar, como na passagem: “para que  gotejem em mim o sumo das folhas / da pitangueira com seu cheiro de infância / reencontrada na tua ausência” (p. 29-30). Bosi lembra que, memória não é sonho, é trabalho, pois “lembrar não é reviver, mas reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado” (1994, p. 55). 

O texto “Tua Palavra”, de Arriete Vilela, exprime uma linguagem vigorosa, acentuada pela interlocução do Eu lírico com o Outro:

 

Tua palavra de pitanga madura,

lua vermelha esmagada na minha mão

mesclou de amargos amores o legítimo

linho branco em que mãe, avó e bisavó bordaram

um fatídico destino poético.

 

Tua palavra de pólen na leveza da ave nômade

fecundou a minha palavra: fiz-me útero

e te embriaguei, amorosamente, das sinuosidades

labirínticas em que protegias os teus medos,

e te nutri com a alegria das bandeirolas

que se esperançavam nas manhãs de prata

com os sinos a quererem-se cristais.

[...]

Tua palavra invejou a minha palavra

e então nos distanciamos,

porque  não podíamos ser galantes entre iguais

entrelinhas.

(VILELA, et al. 2001, p. 36-37)

 

Os versos do poema registram a contenção, o rigor da linguagem e as sutilezas das imagens, que resultam no equilíbrio e na condensação textual. É a memória que se cristaliza no instante de dizer quando o sujeito da enunciação diz que a palavra do outro é como “pitanga madura”, também comparada à “lua vermelha”. Há, no texto, uma aproximação de palavra-memória capaz de nomear o ser de forma amorosa, mediante a palavra poética. Mesmo que haja a consciência de um distanciamento de eu e do outro, a certeza, para o sujeito lírico de que a palavra é portadora de esperanças, tal com os “sinos a quererem-se cristais”, ela apresenta-se como “pólen na leveza da ave nômade”.  Pode-se constatar, nos versos, que a palavra – mediante o ato de nomear - realça a condição do poeta: ser solitário e, ao mesmo tempo, solidário, mediante a força das palavras, tal como afirma Cecília Meireles: “Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência, a vossa!” (1983, p. 235).  Na criação literária, o poeta (re)inventa o seu mundo e dá sentido à vida através do reino encantado das palavras.

Nos poemas sintético de Arriete Vilela, a palavra – enquanto registro/memória – é a expressão maior de um eu lírico que tem, na palavra, a força de um contato amoroso com as palavras. No texto “Poema 27”, a palavra é elemento vital da luta travada pelo poeta:

 

A Palavra:

     uma forma

     de debater-me em

     voragens

     de fundo de rio

     aparentemente calmo

     (Vilela, 2004, p. 50).

 

Mas se há o embate do poeta com as palavras, há também a consciência de solidão, de vazio e impotência perante o ofício do verso, tal como no texto “Poema 28, de Arriete Vilela:

 

Como inconfessável

roteiro, a palavra às vezes

me falta

e então vivo como

lã ao vento:

desatada,

transitória,

cardadura inútil.

(Vilela, 2004, p. 51)

 

O eu lírico feminino se compara como “lã ao vento”, que sente, às vezes, o aparente abandono das palavras, mas não o da poesia.

 

 

“A poesia,

generosa,

permitiu-me

morar com ela”

Adélia Maria Woellner (“Privilégio”, 2004a, p. 44).

 

A poesia de Adélia Maria Woellner apresenta uma multiplicidade de temas que se intercruzam: fazer poético, temporalidade, solidão, memória, religiosidade. No poema “Tecelã”, a poeta trabalha a palavra enquanto tecitura:

 

Costurei palavras,
retalhos colhidos
no baú dos devaneios.

 

Fiz, do manto-poema,
agasalho
das esperanças.

(WOELLNER, 2004a, p. 50).

 

 Da mesma forma como o tecelão que vai escolhendo os fios e emaranhando-os no tear, Woellner constrói seus poemas – tecidos de palavras – com arte e precisão. Daí à afirmação do eu lírico: “fiz, do manto-poema”, tendo em visto a esperança e o viver. Nota-se, na lírica de woellneriana, um “enxugamento” dos textos, encaminhando-se cada vez mais para um estilo direto, privilegiando a economia dos meios de expressão. A poeta realiza uma construção poética alicerçada por uma linguagem densa, sutil, registrando o instantâneo, com uma poesia altamente elaborada, sintética.

No poema “Caçador de Estrelas”, o sujeito lírico se entrega ao ofício poético e faz da linguagem a razão maior de se transformar em “caçador de estrelas”:

 

No espaço da noite,

projeto meu ser:

 

cavalgo cometas

e me transformo

em caçador de estrelas...

(WOELLNER, 1997, p. 21).

 

Ao projetar o ser, no “espaço noturno”, o sujeito poético realiza uma poesia de busca, mediante o trabalho com as palavras. Assim, o poeta – operador de enigmas - faz da linguagem um espelho de dupla face: de um lado a palavra e do outro o silêncio. Na conjugação das formas dialéticas ele constrói o universo imaginário em que é possível a total realização em meio às configurações da linguagem e das imagens simbólicas do poema, enquanto revelação da condição humana. Nas palavras de Paz, “a revelação poética pressupõe uma busca interior. Busca que em nada se assemelha à análise ou à introspecção, mais que busca, atividade psíquica capaz de provocar a passividade propícia ao surgimento de imagens” (1982, p. 65).

No poema sintético, intitulado “Batismo”, o sujeito lírico se entrega completamente ao ofício cantante da poesia:

 

Mergulhei num mar de sonho

E me fiz azul.

 

Batizei-me...

(WOELLNER, 1997, p. 20).

 

A imersão no “mar dos sonhos”, por extensão, no “mar das palavras” e também a entrega total à poesia, faz do sujeito lírico um apaixonado pela palavra poética. Nesse sentido, uma das marcas da modernidade literária é o permanente ato de acreditar na linguagem. O poeta é sempre um apaixonado pela linguagem, ou seja, um lutador e resistente no sentido de desafiar as palavras.

No poema “Infinito em mim”, há, na declaração do eu lírico, o sentido de totalidade em relação à palavra poética:

 

Em tudo,

na semente,

a expressão do todo.

 

No poema,

resulto ser

criador e criado,

quando me permito

fundir-me com o universo

e perceber

o infinito em mim...

(WOELLNER, 1997, p. 7).

 

 No texto, constata-se que o eu lírico busca a fusão do poema ao universo. O ato criador parece surgir de uma luta de corpo a corpo com as palavras em que a poeta se dedica sem tréguas ao seu ofício de lapidar as palavras e, ao mesmo tempo, constrói uma sólida arquitetura do poema, que resulta na palavra-memória, uma vez que a finalidade do trabalho poético é o próprio poema, pois é esta mesma objetividade interna que, no dizer de Ramos Rosa, “o abre ao mundo e permite a comunicação. O que o poema canta, seja qual for o seu motivo ou tema explícito, é o momento sublime da criação” (1980, p. 6). Por isso a revelação do poema enquanto “ação da  linguagem”, instante de ordenação e unificação com o mundo. As palavras não se diferenciam das coisas. O que as interligam “não é a relação de um signo a um referente, ou significado, mas a energia que, através da operação da linguagem, as percorre e assim desvenda a unidade do presente criador” (ROSA, 1980, p. 6-7).

Tempo, palavra e memória aparecem de forma articulada na poesia woellneriana. Primeiramente, há o tempo vivido, cronologicamente, base para  situar  as reminiscências  vivenciadas,  que são  (re)elaboradas, reorganizadas pelo sujeito. Em um segundo momento, a memória tem o poder de ativar ou reter as coisas. A memória faz parte da vida, ou seja, somos feitos, de certa forma de memória, mas também de lembranças e esquecimentos. Da conjugação do tempo e memória, a palavra é o elo vital de um Eu que busca “reviver”, ou simplesmente lembrar o passado, mesmo que de forma evanescente, pois através do ato de rememorar, se realiza o milagre da linguagem.

No poema “Memória atávica”, o eu lírico sente a vida como “infinito mistério” e na busca de si mesmo, se defronta com o espelhamento da linguagem-memória:   

 

Em algum lugar

deste infinito mistério

– que é meu ser –,

a emoção primitiva

brilha

e reflete

a memória de todas as eras.

(WOELLNER, 1997, p. 63).

 

O elemento atávico é recorrente na poesia woellneriana, isto é, os impulsos criadores oriundos da ancestralidade e da memória coletiva ganham contornos em sua obra. O atavismo também está presente no poema “Herança”, de Adélia Maria:

 

Trago gravada nas células

a memória do ancestrais

e no corpo impregnados

os instintos dos animais.

Desvelo minha resistência mineral.

Descubro que tudo mora em mim:

céus, estrelas,

lua e sol,

mares e areias,

ventos e marés,

montanhas e vales,

chuvas e trovões.

Sou terra e sou ar,

sou fogo e água.

Visto-me de folhas e flores,

mastigo resinas

e me sacio em perfumes.

 

Afinal, despida do que não é meu,

quem sou eu?

(WOELLNER, 2004, p. 120).

 

O fato de o eu lírico se (auto)descobrir integrado à essência da vida, impregnado pelos quatro elementos da natureza, no sentido bachelardiano, instaura, no texto, um diálogo do sujeito lírico com questão atávica, centrada no enfoque da memória ancestral e na busca de resposta para a indagação: “quem sou eu?”. Em relação à obra e à temática da memória na obra woellneriana, Clarice Braatz Schmidt Neukirchen tece a seguinte afirmação: “a obra de Adélia Maria Woellner caracteriza-se, sobretudo pela busca da essência humana. A poeta, constantemente, volta-se à observação do passado, revivendo situações e tentando, assim, desvendar o âmago dos seres. Sua obra evidencia que o regresso ao passado é uma forma de se adquirir o autoconhecimento” (2006, p. 137).

 As imagens do poema woellneriano apresentam, ainda, uma maneira especial do sujeito poético ver, sentir e interpretar o mundo, a partir da memória e da força onírica que faz com que o poeta seja um “sonhador de palavras”, como diz Bachelard,

 

[...] todo sonhador inflamado é um poeta em potencial. [...] Todo sonhador inflamado vive em estado de primeira fantasia. Esta primeira admiração está enraizada em nosso passado longínquo. [...] temos mil lembranças, sonhamos tudo através da personalidade de uma memória muito antiga e, no entanto, sonhamos como todo mundo, lembramo-nos como todo mundo se lembra – então, seguindo uma das leis mais constantes da fantasia diante da chama, o sonhador vive em um passado que não é mais unicamente seu, no passado dos primeiros fogos do mundo. (1989b, p. 11. Grifos do autor)

 

Nesse sentido, o sonhador inflamado conjuga o que vê ao já visto, ou seja, conhece perfeitamente a associação entre imaginação e memória (1989b, p. 19). Nesse sentido, através da palavra e da memória, enquanto forças mediadoras e potências capazes de interligar os fatos, as pessoas e suas ações e as coisas do mundo, os poetas, muitas vezes, se sentem fragilizados ao lutar com as palavras na tentativa de expressá-las de forma fecunda e essencial, tal como os versos do poema de Helena Kolody[3], intitulado “Não era isso”, em que o eu-lírico sabe de sua incapacidade de expressar a essência da linguagem, ao dizer,

 

Não.

Não era isso.

 

O que eu queria dizer

era tão alto

e tão longe

que nem consegui soletrar

suas palavras-estrelas.

(KOLODY, PM, 1986, p. 56)

 

Os versos sugerem que por mais que o eu “cante as palavras da canção”, sempre falta algo que poderia ser dito, pois a não-completude e a insatisfação fazem parte da vida humana. Mas quem é o poeta? – esse “legislador desconhecido do mundo” – no dizer de Percey B. Shelley. A poeta Adélia Maria Woellner, com seu poema intitulado “Poeta” aponta para a resposta:

 

Poema inteiro

é o Universo.

 

Poeta?

É o clandestino da poesia,

que se contenta

com pequenas viagens.

(WOELLNER, 1997, p. 75)

 

Assim, é no “uni-verso” da linguagem que o poeta consegue se afirmar e registrar seu “estar no mundo” e sua maneira de ser e de ver as coisas. O texto de Woellner apresenta um fazer poético em que aparece de forma nítida o limite entre o sujeito e seu objeto de criação: o poema. Nota-se, nos versos, a expressão suave das palavras que rompem do branco da página, transformando-se em “flor de poema”. Nesse sentido, António Ramos Rosa observa que, por meio da linguagem, o poeta preserva o ser, pois o que ele realmente sente não é, de maneira alguma, um conhecimento prévio, o passado, o já realizado, mas um mundo que, por meio da ação, “o poeta exerce sobre a linguagem e, reciprocamente, da linguagem sobre o poeta, se constitui, revelando a potencialidade infinita, um novo modo de ser aberto ao futuro” (ROSA, 1980, p. 9).  

Na criação literária as poetas Cesar, Woellner e Vilela (re)inventam mundos e dão sentidos à vida através das palavras. Nesse sentido, a palavra-memória é o fator imprescindível que movimenta as aspirações e sentimentos do sujeito poético, pois no momento da recordação o eu rememora, com profundidade, os acontecimentos e experiências anteriormente vivenciados. A palavra é uma força que impulsiona os artistas da palavra a atingirem sonhos, objetivos e realizações.

Os textos de Ana Cristina Cesar, Adélia Maria Woellner e Arriete Vilela, lapidados no cinzel da memória, instauram um procedimento poético em que a palavra poética – enquanto magia e encanto – tem o poder de despertar no leitor uma atenção voltada para as coisas mais simples, sensíveis, pois a linguagem é sinal de vida e permanência.

 

REFERÊNCIAS

 

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaios sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins fontes, 1989a.

BACHELARD, Gaston. A chama de uma vela. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989b. 

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

BORGES, Jorge Luis. Esse ofício do verso.  São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

BOSI, Ecléa (1994) Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras.

CABRAL, Astrid. La Seine”. In:_. Intramuros. Curitiba: Secretaria de Cultura do Paraná, 1998 [p.63].

­­­­­­­­­­­CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos, 1979/1994. Rio de Janeiro: Sette letras , 1998.

CESAR, Ana Cristina. Inéditos e Dispersos: poesia/prosa. São Paulo: Ática, 1998a.

CESAR, Ana Cristina. A teus pés: prosa/poesia. São Paulo: Ática, 1998b.

CRUZ, Antonio Donizeti da. O  universo   imaginário  e  o fazer poético  de  Helena  Kolody.  Porto Alegre. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) – Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2001. 2 v.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 1997 (Ensino Superior).

FILHO, Armando Freitas. Apresentação da obra. In: CESAR, Ana Cristina. Inéditos e Dispersos: poesia/prosa. São Paulo: Ática, 1998.

GONZALES, Javier. El cuerpo y la letra: la cosmología poética de Octavio Paz. México – Madrid – Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1990.

KOLODY, Helena. Poesia mínima. Curitiba: Criar Edições, 1986.

MEIRELES, Cecília. Flor de poema. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983 (Coleção poiesis). 

MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Trad. Edgard de Assis Carvalho. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

NEUKIRCHEN, Clarice Braatz Schmidt. Tempo e memória na lírica de Adélia Maria Woellner. Dissertação (Mestrado em Letras) – Programa de Pós-graduação Stricto sensu em Letras, área de concentração em Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Cascavel: 2006.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 (Coleção Logos). 

PAZ, Octavio. Convergências: ensaios sobre arte e literatura. Trad. Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. 

PAZ, Octavio. A outra voz. São Paulo. Siciliano, 1993.

ROSA, António Ramos. O conceito de criação na poesia moderna. COLÓQUIO/LETRAS, Lisboa, n. 56, julho, 1980.

SHELLEY, Percey Bisshe. Defesa da poesia. In: LOBO, Luiza. Teorias poéticas do romantismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

VILELA, ARRIETE. Frêmitos. Maceió: Grafmarques, 2004.

VILELA, ARRIETE. Lãs ao vento. Rio de Janeiro: Gryphus, 2005.

VILELA, ARRIETE. Vadios afetos. Maceió: Gazeta de Alagoas, 1999.

VILELA, ARRIETE. Artesanias da palavra (Antologia de poemas, com Gonzaga Leão, José Geraldo Marques, Otávio Cabral e Sidney Wanderley). Maceió: Grafmarques, 2001.

WOELLNER, Adélia Maria. Infinito em mim. / Adélia Maria Woellner. Curitiba: 1997.

WOELLNER, Adélia Maria. Sons do silêncio: poemas. Curitiba: Torre de Papel, 2004a.

WOELLNER, Adélia Maria. Luzes no espelho: memórias do corpo e da emoção. Curitiba: A. M. Woellner, 2004b.

 

 

 

 

 



[1] Astrid Cabral nasceu em Manaus (AM). Poeta, ensaísta, escritora, publicou várias obras, entre elas: Alameda (1963); Ponto de cruz (1979); Intramuros (1998); De déu em déu (1998); Rasos d’água (2003).  Em 1962, inicia o magistério superior, na recém criada Universidade de Brasília. Afastou-se devido a ditadura militar. Com a anistia, em 1988, foi reintegrada, passando a lecionar Literatura Brasileira. (CABRAL, 1998, vii) 

[2] Clarice Braatz Schmidt Neukirchen defendeu, em 2006, a Dissertação de mestrado intitulada Tempo e Memória na lírica de Adélia Maria Woellner, sob minha orientação, no Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Letras – Aérea de concentração em Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

[3] É possível observar um diálogo na obra de Adélia Maria Woellner com a de Helena Kolody (1912-2004). Kolody - filha de imigrantes ucranianos, nascida em Cruz Machado (Paraná) - tem uma obra significativa no panorama da Literatura brasileira (publicou doze obras, várias antologias e obras reunidas).

   
 


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